
Inscrições abertas para o VI Concurso Cultural de Divulgação Científica da SBFTE Jovem
22 de julho de 2026
XL Reunião Anual da FeSBE marca os 40 anos da Federação com homenagem aos fundadores
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XL Reunião Anual da FeSBE marca os 40 anos da Federação com homenagem aos fundadores
22 de julho de 2026Mensagem do Prof. Eduardo Moacyr Krieger – 40 anos da FeSBE
Durante a XL Reunião Anual da FeSBE, foi compartilhada uma mensagem do Prof. Eduardo Moacyr Krieger, na qual relembrou a trajetória da FeSBE desde sua fundação, destacou as conquistas alcançadas ao longo de sua história e refletiu sobre os desafios e as perspectivas para o futuro da ciência brasileira.
Aos 98 anos, o Prof. Eduardo Krieger nos brinda com um texto que resgata a história da Federação, reafirma os valores que motivaram sua criação e renova o compromisso com a excelência científica, a formação de pesquisadores e a defesa da ciência como pilar do desenvolvimento nacional.
Desejamos uma excelente leitura:
”
Caros colegas,
É com grande alegria que me dirijo a todos nesta sessão de abertura em que celebramos os 40 anos da Federação de Sociedades de Biologia Experimental. Lamento não poder estar presente fisicamente, mas acompanho com satisfação este momento que não pertence a uma pessoa ou a uma geração, mas à comunidade científica brasileira que, ao longo de décadas, soube construir instituições, formar pesquisadores, defender a ciência e manter viva a convicção de que o conhecimento é uma das formas mais nobres de serviço ao país.
A criação da FeSBE, em 1986, não foi um gesto administrativo. Foi a expressão de uma necessidade histórica. O Brasil havia amadurecido cientificamente. A pós-graduação se consolidava, os laboratórios se multiplicavam, os jovens pesquisadores deixavam de ser exceção e passavam a constituir uma força real de renovação. Já não bastava que cada área se reunisse isoladamente. A biologia experimental brasileira precisava de um espaço comum, no qual fisiologistas, bioquímicos, biofísicos, farmacologistas, imunologistas, pesquisadores clínicos e, depois, neurocientistas, biólogos celulares, pesquisadores em visão, endocrinologia, ciência de animais de laboratório, toxicologia e tantas outras áreas pudessem reconhecer que pertenciam a uma mesma aventura intelectual.
A inspiração vinha, em parte, do modelo norte-americano da FASEB (Federation of American Societies for Experimental Biology) e desde 1993, a Experimental Biology, que conheci ainda jovem, quando apresentei meu trabalho na reunião anual de 1957. Ali percebi a força de uma reunião que não era apenas uma soma de congressos, mas um ecossistema. Um lugar em que a diversidade de disciplinas produzia encontros inesperados, perguntas novas e colaborações que dificilmente nasceriam dentro dos limites estreitos de uma especialidade. A FeSBE nasceu desse espírito: reunir sem uniformizar, integrar sem diluir, fortalecer cada sociedade federada pela convivência com as demais.
Esse ideal estava profundamente ligado à minha própria formação. Entrei na Faculdade de Medicina de Porto Alegre em 1948, numa época em que o ensino médico ainda era fortemente profissional, mas em que o verdadeiro ambiente científico era raro. Desde cedo, amadureceu em mim a convicção de que a universidade não poderia limitar-se à transmissão de conhecimento já consolidado. Ela precisava ensinar a formular perguntas, a duvidar com método, a trabalhar no laboratório, a testar hipóteses e a formar pessoas capazes de avançar o conhecimento.
Essa convicção ganhou forma definitiva quando me aproximei da fisiologia experimental, primeiro em Porto Alegre, com o apoio da CAPES e da escola argentina de Bernardo Houssay, e depois em Buenos Aires, sob a orientação de Eduardo Braun- Menendez. Ali aprendi uma lição que nunca abandonei: em ciência, o mais importante não é acumular informações, mas reconhecer os limites do que se sabe e, a partir deles, construir o caminho para desvendar o desconhecido. Mais tarde, nos Estados Unidos, com William Hamilton e Raymond Ahlquist, consolidei a compreensão de que a formação científica exige domínio da “copa e cozinha” do laboratório: não apenas conhecer técnicas, mas compreender profundamente o método que permite criar novas técnicas, formular novas perguntas e enfrentar novos problemas.
Foi essa experiência que me fez valorizar, acima de tudo, a formação do pesquisador. A ciência brasileira não se constrói apenas com equipamentos, prédios ou editais. Ela se constrói, antes de tudo, com pessoas bem formadas, com ambientes intelectualmente exigentes, com mestres generosos, com instituições que protegem o tempo de pensar, de errar, de repetir, de discutir e de descobrir. A FeSBE teve, desde o início, papel decisivo nesse processo. Suas reuniões anuais ofereceram a milhares de estudantes a primeira oportunidade de apresentar resultados, ouvir críticas, conhecer líderes de outras áreas, comparar padrões de qualidade e perceber que faziam parte de uma comunidade maior.
Celebrar 40 anos, portanto, não deve ser apenas olhar para trás com nostalgia. Deve ser reafirmar os preceitos que justificaram a criação da FeSBE. Primeiro, a defesa da ciência como atividade essencial ao desenvolvimento nacional. Segundo, a convicção de que a pesquisa básica e a pesquisa aplicada são dimensões complementares de um mesmo processo de geração, amadurecimento e transformação do conhecimento. Terceiro, a certeza de que a formação de pesquisadores especializados é uma tarefa estratégica na era do conhecimento. Quarto, a necessidade de representação coletiva da comunidade científica perante o Estado e a sociedade. E quinto, a importância da multidisciplinaridade como condição para enfrentar problemas complexos.
Hoje, esses preceitos são ainda mais atuais do que em 1986. A ciência biomédica vive uma época extraordinária. A biologia molecular, a genômica, a bioinformática, a inteligência artificial, os modelos celulares humanos, os sistemas microfisiológicos, a medicina de precisão, as terapias avançadas e a ciência de dados ampliaram de modo impressionante nossa capacidade de compreender a vida, a doença e a resposta terapêutica. Ao mesmo tempo, essas novas ferramentas não diminuíram a importância da biologia experimental clássica. Pelo contrário: tornaram ainda mais necessária a pergunta bem formulada, o experimento bem controlado, a interpretação crítica e o respeito ao fenômeno biológico.
Vivemos também uma época em que se fala muito de big science: grandes consórcios, grandes bancos de dados, plataformas tecnológicas, redes multicêntricas, integração de imagens, genomas, proteínas, células e desfechos clínicos. Tudo isso é necessário. Nenhum país que pretenda ocupar lugar relevante na economia do conhecimento poderá prescindir de grandes plataformas e de projetos cooperativos ambiciosos. Mas a big science não substitui a small science. O pequeno laboratório, a pergunta original, a intuição do jovem pesquisador, a observação inesperada na bancada, o diálogo entre orientador e aluno continuam sendo fontes insubstituíveis de descobertas. O desafio é não opor esses dois mundos, mas articulá-los: dar escala ao que precisa de escala, sem sufocar a criatividade que nasce da liberdade intelectual.
Essa é uma missão natural para a FeSBE. A Federação deve ser, cada vez mais, o espaço onde sociedades científicas, pesquisadores básicos, clínicos, translacionais, jovens estudantes, grupos consolidados e novas lideranças se encontrem para discutir não apenas resultados, mas rumos. A FeSBE deve ajudar a formular uma agenda nacional para a biologia experimental em saúde, em ambiente, em tecnologia e em inovação. Deve defender a qualidade da pós-graduação, a estabilidade do financiamento, a internacionalização inteligente, a ética na pesquisa, a integridade científica e a valorização da carreira acadêmica. Deve, sobretudo, preservar a ideia de que ciência é uma construção coletiva, cumulativa e pública.
O Brasil precisa disso de maneira urgente. Somos um país de dimensões continentais, com uma das maiores economias do mundo, mas que ainda convive com desigualdades profundas, baixa produtividade, dependência tecnológica e enorme dificuldade de transformar conhecimento em bem-estar. A chamada armadilha da renda média não é apenas um conceito econômico. É uma advertência histórica. Países que não investem de modo persistente em educação avançada, ciência, tecnologia, inovação e instituições de qualidade ficam presos a ciclos de crescimento limitado. Produzem riqueza, mas não conseguem convertê-la em progresso sustentado, soberania tecnológica e melhoria ampla da vida de sua população.
Na área biomédica, essa questão é ainda mais evidente. Um país que depende de conhecimento produzido fora de suas fronteiras para diagnosticar, tratar, prevenir e inovar em saúde permanece vulnerável. A ciência experimental brasileira não é luxo; é infraestrutura de soberania. Sem ela, não teremos novas vacinas, novos fármacos, novos biomarcadores, novos métodos diagnósticos, novas tecnologias digitais, nem capacidade plena de responder a emergências sanitárias, doenças crônicas, envelhecimento populacional e desigualdades regionais em saúde.
Por isso, ao celebrar a FeSBE, devemos também renovar um compromisso público. A ciência brasileira não pede privilégio. Ela pede continuidade, avaliação rigorosa, liberdade acadêmica, recursos compatíveis com a ambição nacional e respeito ao tempo longo da formação científica. Pede que o país compreenda que cada aluno de iniciação científica, cada doutorando, cada pós-doutorando, cada jovem docente e cada técnico especializado representa uma aposta no futuro. E pede que a sociedade reconheça que laboratórios fortes, universidades fortes e sociedades científicas fortes são parte essencial da democracia, do desenvolvimento e da justiça social.
Quando olho para a trajetória da FeSBE, vejo uma história de sucesso. Vejo gerações que se formaram em suas reuniões. Vejo sociedades que aprenderam a cooperar. Vejo áreas que cresceram, se diversificaram e ganharam reconhecimento internacional. Vejo também desafios: a fragmentação dos congressos, a competição por recursos escassos, a dispersão temática, a dificuldade de atrair jovens em um ambiente profissional muitas vezes incerto. Mas esses desafios não diminuem a importância da Federação. Ao contrário, mostram que ela continua necessária.
A FeSBE deve ser, nos próximos 40 anos, mais do que uma reunião anual. Deve ser uma consciência coletiva da biologia experimental brasileira. Deve ser fórum de ideias, escola de lideranças, ponte entre gerações, defensora da ciência e parceira ativa das políticas públicas. Deve aproximar a bancada do leito, o laboratório da população, a descoberta da inovação, sem perder o rigor que caracteriza a boa ciência.
Aos jovens pesquisadores aqui presentes, deixo uma palavra especial. Não se deixem intimidar pela complexidade do tempo presente. Toda geração científica enfrentou escassez, incerteza e obstáculos institucionais. O que distingue o pesquisador não é a ausência de dificuldades, mas a capacidade de transformá-las em perguntas, trabalho e persistência. Aprendam técnicas, dominem ferramentas modernas, conversem com outras áreas, usem dados, modelos e inteligência artificial. Mas não abram mão da pergunta original, da dúvida honesta e da disciplina experimental.
Aos dirigentes das sociedades federadas, deixo um apelo: preservem a unidade sem apagar a diversidade. A força da FeSBE está exatamente em reunir áreas diferentes em torno de um mesmo princípio: a defesa da biologia experimental como base do conhecimento, da formação e da inovação em saúde e nas ciências da vida.
E a todos os colegas, deixo meu agradecimento. A FeSBE não pertence aos seus fundadores. Pertence aos que a mantiveram viva, aos que a renovaram, aos que a criticaram construtivamente, aos que nela apresentaram seus primeiros trabalhos, aos que organizaram simpósios, avaliaram resumos, presidiram sessões, formaram alunos e defenderam a ciência mesmo nos momentos difíceis.
Que estes 40 anos sejam celebrados com orgulho, mas também com senso de responsabilidade. A melhor homenagem ao passado da FeSBE é fazer dela uma instituição ainda mais necessária para o futuro do Brasil.
Muito obrigado”.



